sexta-feira, setembro 02, 2005

Enterrar os vivos.

Diálogos entre Rubek e Irene, protagonistas do drama em 3 atos "Quando Despertamos de Entre os Mortos" (mas a tradução para o inglês é bem melhor, "When We Dead Awaken") de Ibsen.

Rubek - Oh! Irene, chega de idéias insensatas!... Estás viva! Bem viva!

Irene (ergue-se lentamente da cadeira e diz com voz trêmula) Fazia anos que eu estava morta. Vieram amarrar-me. Ataram-me as mãos atrás das costas. Puseram-me num sepulcro e fecharam-no com barrotes de ferro, depois de lhe terem acolchoado as paredes, de modo que ninguém pudesse ouvir os lamentos que vinham do túmulo... Mas eis que, pouco a pouco, eu começo a ressuscitar de entre os mortos. (torna a sentar-se).

Rubek (depois de um silêncio) - Acusas-me? Acha que sou culpado?

Irene - Sim.

Rubek - Culpado do que chamas... a tua morte?

Irene - Culpado de me ter sido necessário morrer. (...)


...

Irene - ... e que tu me disse aquelas palavras frias como um sepulcro: "Tu nunca foste senão um episódio em minha vida..."

Rubek - Mas eu nunca te disse isso, Irene! Foste tu que falaste de episódio.

Irene (continuando) - ...eu puxei o estilete, para te apunhalar nas costas.

Rubek (com voz sombria) - E por que não o fizeste?

Irene - Porque, repentinamente, percebi com pavor, que tu estavas morto... há muito tempo.

Rubek - Morto?

Irene - Morto. Morto como eu. Cadáveres frios e flácidos, nós ali estávamos, nas margens do lago Taunitz, a brincar juntos.


*Henrik Ibsen, Quando Despertamos de Entre Os Mortos

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