Eu precisava de tempo longe de todos, precisava olhar para dentro. Meu interior era um subsolo, subterrâneo, uma mina de carvão, precisava quebrar a rocha com minhas mãos, sem ajuda. Queria olhar a chuva cair lá fora, pelas frestas das cortinas semi-cerradas, de viés, oblíquo e distante. Do fundo da minha mina ouvir as gotas a cair no longe, apenas aquelas que o teto filtrava e chegavam puras no interior. Presenciar o nascimento de uma estalactite e sua juventude, não importa o tempo necessário. Minha chuva era assim. Esparsa, fraca, gotejante. Minha escuridão precisava de nenhuma luz, de uma lanterna a querosene talvez, fumegante e fétida. Me deitava no chão da caverna e olhava fixo dentro da noite. Apagava a lanterna. No fundo sabia que a luz do dia brilhava pálida lá fora. Nenhum som chegava aos meus ouvidos, mas minha música dobrava o tempo em um acorde menor, descompassado, lamentoso, interior. Deitado no fundo da caverna, no chão. Minhas costas encostavam na parede, o lado esquerdo do meu rosto no chão. Sempre o esquerdo. A umidade das goteiras próximas molhava meus dedos, apertados obsessivamente. Olhava para o negro, para o nada. O nada olhava para mim. A chuva vinha e inundava minha mina, meu subsolo, mas eu não me movia. Um rio de água precipitava-se as vezes para dentro da caverna, mas eu não queria me mover. O rio secava e novamente as goteiras batiam no chão. Ritmo da minha música. Compasso da minha alma. Queria que o rio viesse e me levasse de volta para a superfície. Queria que minhas cortinas se abrissem. Queria que a chuva molhasse meu rosto, frio e rígido. Água a entrar pelos meus poros, queria ser uma gota de chuva também. Eu era uma nuvem de chuva, plúmbea e vagarosa. Eu era o mineiro de mim mesmo, aquele que abria fendas em minha própria carne para encontrar uma vertente preciosa. Mas eu precisava de mais água para isso. Abri minha janela e deixei a chuva me lavar por horas seguidas, até que a noite chegasse novamente.
FVL
22/01/06
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