segunda-feira, novembro 05, 2007

Dentro do vinho

Mais uma taça de vinho e um nocturne nos meus ouvidos. Como sou cool. Ou não. O que se precisa é na verdade o que mais nos mata. Morte e vinho. Morte e sexo? No crucifixo de alguém dizia que morte é sexo. Deixa-me pegar um poema e escrever em cima. Um momento.
Tuas sombras querem descer, mas não querem, porque são orgulhosas, descrer. Pedem-te ajuda quando sabem que não podem mais olhar adiante, e olham para trás, com remorso dos dias que te abandonaram. Um inverno de crepúsculos suculentos como carniça enlameada te procura. E mesmo assim rejeitas, sombra pútrida, a felicidade que o botão de crisântemo te estende. As brumas, que de tão batidas não cegam mais, trazem o conforto e a melancolia, sob as quais os reis procuram uma justificativa. São como as dissonâncias do tempo, que nos tomam a sincronia da vida, nos enchem dos vapores dionisíacos. Teu sexo quer a sombra nas praias mortas galegas, e uma rouquidão de sabores que perdura dentro de tempos infinitesimais. Vinho que se derrama sobre nossa cruz, vinho que nos embala o sexo feito de promessas e véus de olhos baços de prazer. Minha dor que se esvai em prantos mínimos e gozos idem. Vai com o vento e se compraz dentro de um espasmo sombrio. O som da alegria não precisa de contrapontos, precisa de mais carne, e de alimento, fornecido sempre pela continuidade. Contínuo. Suave. Sombra e teu cabelo, negro como meus tendões, fartos de sensações promíscuas, deliciados na contemplação do doce. Tempo e sombras que gostariam de árvores para deitar no leito quente. Frio e suave, lento e contínuo. Antes que a manhã volte, deixam os dedos as carícias e, os olhos, as sombras que te revestem. Bela, sombria e quente.


FVL

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