domingo, novembro 04, 2007
Esse aqui vai sem título
Escritura amena para noite de tédio sem cheiro. Senti uma ferroada no dedão do pé, então tudo começou. Jeremias, aquele bastardinho, sempre encontra uma bala perdida dentro do crânio (o próprio) e não consegue parar de contar e recontar suas neuroses vendidas ao psicanalista. Balaio de neuroses vendidas barato. E como isso fazia aumentar a coceira do seu dedão sujo. Porra, uma neurose cultivada, preciosinha, desperdiçada num consultório de um estranho? E agora vinha aquela janela triste, com a persiana meio fechada e os púdous impudicos a cagar pela calçada. O que fazer? Agora, exatamente agora, o que fazer? Cigarro. Acende mais um. Conta uma batida no cigarro, duas, três, dois púdous passando, um desprezo enorme pelos condutores de máquinas portáteis de defecagem... e alguém vem tentar abrir a porta. Entende que é muita, MUITA coisa ao mesmo tempo? Não tem mais tempo de formular a neurosezinha. Amanhã vem mais trabalho e desprezo. Não. Jeremias sente prazer na vida. Não bate corner. Mas sente. O que importa mesmo é que ele queria um machado, mas não sabia ainda que tipo. Podia ser grande e pesado, daquelas réplicas medievais que se encontra na internet, ou podia ser leve e feito para atirar (que também se acha na internet, óbvio). E o que ele queria fazer com uma francisca (wikipedia para vocês)? Atirar em um alvo, naturalmente. Um alvo móvel e pequeno. Imaginem só. A mulher de classe média padrão, com seus quarenta anos de luxúria mal resolvida, sai para passear com o totozinho depilado e rebolante - contente porque tem o ventre cheio, inquieta pois não pode defecar na rua. Chuva. Chuva de machados decapitantes e vociferantes. NÃO DEFECARÁS, eles gritam, e decapitam. E lá vem escorrendo ladeira abaixo, sangue, muito sangue, fezes caninas e bolotinhas de pêlo branco. E o que essa gente toda quer dizer exatamente (exatamente é muito importante) com a necessidade de ser (veja bem, SER) pró-ativo? Certamente um atirador de machados é uma pessoa pró-ativa. Não tem porque não ser, pensa Jeremias. Há quem diga precisar de emoções fortes para se sentir vivo, coisas intensas, sabe? Agora o que incomoda Jeremias é saber se um machado pode ser considerado um símbolo fálico também. Porque se for, talvez o prazer diminua exponencialmente (ele é uma pessoa reservada, dizem os amigos). Aconteceu então que começou a chover. E choveu, choveu, parou e ele não esqueceu. A baba sempre escorre quando Jerê olha pro nada.
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