quarta-feira, outubro 28, 2009

Fuzil na Grama

Encontraria no campo
No outono das cores
Num celeiro abandonado
Com ferramentas
E ferrugem
Ancinhos e tesouras:
Fuligem sem futuro
Encontraria, quem sabe
Uma voz perdida numa fresta
Ou no fechar de um alicate
Passos errantes na relva
Ou que pulam sem compromisso
Pequenas alegrias corriqueiras
Que não cabem na memória:
Memória cansada, empoeirada
Gente de vida diferente
Mas eu sei
Pareceriam alienígenas
E tua mãe não deixaria
E espancaria também
Mas quem? Ah, esse seria teu
Teu pai, é claro, pai
(Estrangeiros)
Olha lá: nascem coisas
Na ponta dos fuzis:
Flores? Musgo? Luz?
Mas tenho certeza:
Não é gesto humano
E sim vida aleatória
Que brota das coisas
Quando ninguém observa
Faz muito tempo
E a porta do celeiro fecha
A chuva cai na grama
O fuzil enferruja


FVL

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