Acima da muralha passa a nuvem,
Leve e breve como uma desgraça
Cotidiana de cinzas alheios.
Mas essa é a cor do meu tempo
E dos futuros inconcebidos,
Gente que não sei, nunca verei.
Nesse céu chumbado de pesos
A nuvem é leve e flutua
A desmanchar-se em friezas,
Todas sutis como um toque
De dez dedos-desprezos.
É sempre quando ele vem,
Esse cotidiano cinzento,
Meu chão se enlameia,
Pensamentos grudam abaixo.
Assim, uma nuvem passa, acima,
Indiferente pois não tem
Memória e duração humanas:
Esse flagelo negro no meu porvir.
Mas no eterno sublime, vivo,
Deve bater algum raio,
Um sopro de zéfiro roxo,
Desmanchando essa beleza toda
Feita de leveza, como um memento,
De que os dias são humanos,
Coisa de gente mesmo,
E que efêmero é o eu pequeno,
Assim, preso em si mesmo.
FVL
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