E nos momentos em que tudo parece perdido, quando tudo parece se esvair e escapar pelos dedos, o que poderia nos salvar? Existe realmente uma salvação para todo o nosso sofrimento? As perguntas são mais gastas do que os termos que as compõem, mas mesmo assim nenhuma resposta é apresentada como universalmente válida. Eu não tenho a pretensão de responder à elas de modo definitivo, me contento apenas em observar o que as soluções provisórias provocam sobre as situações em que poderíamos nos fazer semelhantes indagações...
Eis que podemos observar R... mergulhado em uma situação em que estas perguntas se insinuam de modo libidinoso, quase o forçando a chegar a conclusões -que talvez sejam até mesmo precipitadas- e sem chances de conseguir adiar o prazo de entrega. Não imagino que tais conclusões satisfaçam inteira, ou sequer parcialmente, a maioria das almas desacreditadas deste mundo insensato no qual vivemos, mas, enfim, que se desenrole como deve ser.
Tudo começa quando a alma de um errante, esse nosso R..., se prepara para um novo despertar, um despertar há muito esperado, que se não fosse pela sua falta de perseverança, poderia se dizer que até mesmo fora planejado. Mas tal não é o caso. Há um bom tempo R... acredita serem as suas convicções e infortúnios meras casualidades, coisa indigna de nota no livro do Destino. E tão descrente andava pelas ruas da sua cidade, que já não imaginava mais ser possível ver beleza na copa das árvores, ou graça no tropeçar de algum transeunte incauto. Nem mesmo os pequenos e insignificantes acontecimentos da vida podiam distraí-lo mais.
Evidentemente, ele precisava culpar alguém pela sua infelicidade, e quem melhor do que a sua cidade e a todos que a habitavam? Uma vez desviada a culpa de si mesmo e achados os verdadeiros culpados, ele talvez tivesse a chance de olhar o mesmo mundo com olhos recauchutados. Talvez ele quisesse algo como um pacto de sangue, um ritual pagão para deuses obscuros, um lampejo de irracionalidade diante de seu sistema tão rígido e inflexível de ver as coisas. Mas é claro que não sabia ao certo o que queria, assim como não sabia também se culpava a cidade inteira ou apenas os cachorros e seus dejetos infectos espalhados pela calçada. Uma resvalada a mais ou a menos, no meio de tão altos devaneios já era quase insignificante para aquele peregrino das vastidões oníricas.
Mas afinal, do que se trata sua enfermidade? De onde vem tanto sofrimento e ranger de dentes? Ele acreditava do fundo do seu ser que nunca saberia ao certo para onde direcionar tais questionamentos, limitando-se, sempre que tentasse, a um balbuciar inarticulado entre diferentes datas de sua vida, diferentes emoções que poderiam encontrar algo em comum, produzindo um novo siginficado dentro de sua mente degenerada. Mas ele nunca conseguiu encontrar um ponto de partida para o seu infortúnio espiritual. Tudo parecia ter sempre existido, junto com ele, com suas memórias, todas elas já infectadas por um "vírus" de desconforto, como uma sensação de estranhamento. Ele imaginava que em algum momento da sua vida, as luzes eram mais luminosas, a grama mais verde, o céu mais azul... todas essas coisas que se devem achar quando se está feliz.
Mesmo não tendo certeza de algum dia ter sentido semelhantes alucinações, ele foi à procura delas, dentro de si mesmo, como um cavaleiro em busca do Santo Graal. Não poderia haver motivo mais nobre para uma busca, uma introspecção de tamanha importância na vida de qualquer semelhante. Ele se contentava com sua grandeza, sem revelá-la a mais ninguém. Foi em busca da sua salvação, ou quem sabe alguém também diria, da sua perdição.
Bem, depois de culpar a cidade, não sabendo exatamente que parte dela culpar, tratou de se mudar para uma cidade que correspondesse -no seu novo imaginário idealista- aos seus anseios mundanos, primeiramente. Ele acreditava ser possível suprir a sua falta de iluminação espiritual pela aquisição de um bem-estar material a longo prazo. Talvez tivesse mais tempo para se dedicar à sua longa jornada assim, livre dos anseios terrenos que o prendiam à sua vida laboriosa. Mas ele acreditava que tais momentos não seriam necessariamente preenchidos pelo ócio, é necessário dizer, como muitos de seus contemporâneos. Não, na verdade ele pretendia a eternidade, e a eternidade não se preocupa com futilidades mundanas. E qualquer sacrifício em favor da sua eternidade seria justificado. O errante se entregaria então, à uma vida de trabalho constante -não muito cansativo, muito menos braçal, é verdade- e de longas meditações diárias, em busca de seus espinhos interiores (afinal para se conhecer a felicidade, devemos conhecer a causa da nossa tristeza, etc.) e quem sabe algumas escapadinhas para a vida boêmia.
Uma vez instalado em seus novos aposentos, escolhido também por sua bela vista da cidade, do alto de um morro, o que muito o agradava, R... :-)
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