sexta-feira, julho 21, 2006

Eu Tive Um Sonho

Eu ainda lembro bem, apesar de ter acontecido há muito tempo. O tempo, aliás, já não faz mais muita diferença para mim. Eu faria tudo de novo. Exatamente igual. Por quê? Não sei, talvez eu adore o gosto do pus. Não importa. E eu me lembro do meu sonho, em lampejos noturnos, quando olho pro horizonte, e não vejo nada além das brumas. Você tem que ver as brumas da minha janela uma noite dessas. Vai se apaixonar. Mas o meu sonho, ele acontece mais ou menos assim: eu sinto um choque fraco, quase morto, barulhento como um ranger de dentes num bocejo contido, e um pequeno frio escorregadio nos pulsos, que passa para os dedos. Um arrepio, sei lá. E nesse átimo vertiginoso, tudo me aparece.
Eu sou sem forma, eu sou além do tempo. Então nasço, mas sempre estive lá, à espera. E assim aconteceu:
O Inimigo está logo ali, bem à minha frente. Eu estou aqui, parado, e espero. A cor do mundo é marrom e ferrugem. O solo rumina barulhos de besouros dentro de árvores, e me faz sentir bem. O Inimigo tem olhos de fúria disciplinada no quartel. Eu tenho olhos de calma luxúria aprendida na lama. O vento passa pelos meus dedos e desalinha meus cabelos, traz um cheiro de ferro oxidado. Ele dá o primeiro passo e investe com sua baioneta enferrujada. O barro espalha-se por todos os lados, enquanto o animal de cativeiro aproveita para se libertar, por breves momentos, da sua prisão mental. Eu sei o que o Inimigo quer. Eu sei o que a Besta não quer. Eu não tenho armas, nem defesas. Ele corre contra mim, sem olhar para os lados, vidrado como um viciado na minha pele nua e fina. Ele vai me matar. As nuvens acima e envolta de mim, todas do mesmo tom, não sei se marrons como o solo, ou ferruginosas como o vento. A luz, que escorre fraca por elas, é líquida como a refração de um sol pardo e terrível vista do fundo de um lago barroso. Olhos arregalados, olhos vermelhos e enlameados, olhos com veias saltadas, olhos de ódio, de ira. Eu vejo, agora, e sinto a evidente decomposição desse lodaçal. E gosto. O Inimigo está muito próximo agora. Eu vejo os vermes, do tamanho de meus dedos, brotarem de dentro do corpo do meu Inimigo enquanto ele corre para mim. Os vermes pegajosos e amarelos são muitos, e tomam conta daquele corpo obcecado em movimento. Mas o Inimigo não quer ver. Por cima da sua pele, por debaixo da sua roupa pardacenta, os vermes quase cobrem o Maldito por inteiro, deixando apenas dois olhos ensandecidos na minha direção. Ele continua correndo para mim. Ele sente uma mordida no olho direito. Ele pára. Está horrorizado. Os olhos mudam de expressão, e refletem o mais profundo terror. A baioneta cai no lodo e afunda, e o Inimigo me olha apavorado, suplicante. Eu olho com benevolência, cheio de calma luxúria. E entendo. Minhas mandíbulas abrem-se monstruosamente, revelando as presas de um tamanho ignominioso que a habitam. Então eu como, um por um, todos os vermes do meu inimigo.

FVL

Nenhum comentário: