quarta-feira, julho 28, 2004

LUZ

Vinte e um anos. Ele se levanta da cadeira, não há mais nada para esperar ali. O tempo continua passando, a vida perdendo o brilho. Suas lembranças não trazem mais conforto e suas memórias apenas destroem ainda mais sua esperança. Ele se lembra de um tempo onde tudo era iluminado. As cores tinham gosto. Os sons acariciavam a alma. Tudo em volta era um deleite para os sentidos. Não havia tristeza nas suas palavras, nem essa melancolia nos seus gestos. Essa sombra, que nem mesmo escura é, sequer passava por perto. Por esse lusco-fusco seus pensamentos não passavam. Sequer sabiam da sua existência. Dias de luz.

Agora ele caminha pela rua, embaixo desse céu azul, poucas nuvens, vento primaveril no rosto. Os pequenos humanos continuam brincando, os grandes humanos seguem para seus trabalhos. Existe um sentido para tudo. Existe um sentido para eles. Muita luz e muita cor. Mas apenas para eles.

Caminhando mais um pouco, ele sabe que chegará no rio. Mas não um rio qualquer. O rio da sua infância, com sua correnteza forte, com suas pequenas ondas que batem na margem, a imponente ponte que passa por cima dele, sempre cheia de carros. E como é forte a luz que reflete na superfície. Um rio iluminado. Não falta muito para chegar lá, e isso o alivia. Será que tudo voltaria? As cores, os sons, as impressões todas? A alegria, quem sabe? Ele andou tão afastado desse rio, e já faz muito tempo. Seus caminhos não cruzavam mais essa ponte, muito menos aquelas margens.

Agora os pés batem no concreto. Mas existe uma sensação de vazio. Apenas os ecos dos seus passos, na sua cabeça mesmo, e o rio abaixo. Nunca havia sentido isso, mesmo depois de tantas passagens pela ponte. Mas isso já faz tempo. O coração bate e os pés também. Existe luz nesse parapeito áspero. Ainda existe luz no rio. E os carros atrás dele não deixam nem eco. Mas parece que as margens cheias de verde já não têm tanta cor. Apenas a luz continua ali, em todo lugar. Agora o sapato raspa no concreto do parapeito. Mas o som não chega nos seus ouvidos. Alguns carros buzinam. Outros param. De dentro de outros saem alguns humanos. Mas isso já não faz diferença. Ele nunca quis ser humano mesmo. É bom estar aqui, no meio do rio. Mergulhado na água. Cheio de luz. Sem som. Sem cor.

Fernando Vieira Lazzarin

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