quarta-feira, julho 28, 2004

Magnífico

Entre as árvores ele se encontava. A densa atmosfera desse dia não anunciava boas novas. O destino, quem sabe glorioso, ou talvez fatalmente trágico, espreitava, ora nas sombras recém-nascidas, ora nas luzes agonizantes. Uma nova idéia surgia na sua mente. Nova e terrível, como a tinta negra a se dissolver na água. Num instante fora do tempo, a alma embriagada de tabaco desceu do etéreo e plantou raízes no lodo pegajoso de seu novo pensar.

Uma nova embriaguez se apossou dele, vítima passiva do seu porvir. A sensação do poder mórbido e terrível já dominava o porvir dos seus pensamentos. Dentes a ranger e olhar vidrado no nada. Naquele instante já não questionava mais. Apenas imaginava a ação. Sua ação. Terrível e magnífica. Bela.

As pessoas de passagem, assustadas, desviavam o olhar. Quem seria ousado o suficiente para imaginar os vis pensamentos de tão repugnante criatura? Ninguém o olhava além do relance. No meio da ventania, ele parecia transpirar e espalhar o odor do seu ódio, inominável e expansivo.

Mas no meio do seu êxtase, uma pontada da realidade insistia em atormentá-lo: ele precisava de tempo, tempo apenas suficiente, para planejar sua obra. Não queria demorar muito, queria agora, se fosse possível. Desejava ardentemente seu grand finale, apogeu da sua obra maligna. O modo como todos os fatos se entrelaçavam, tudo se completava, nada deixado de lado. Todos os detalhes meticulosamente calculados. Um mistério por vir. Apenas ele, divino criador, teria a chave da solução. Impossível a todos os outros entenderem o como, muito menos o por quê, deste espetáculo ímpar. Trágico. Belo. Insolúvel!

Em breve, sim, EM BREVE! Todos testemunhariam seu gênio absoluto! Inigualável e inclassificável. Um divisor de águas na história do mundo. A partir de então, mundo novo, à sua forma.

Coitados de todos nós, humanos, se o pesado galho, do alto, não tivesse esmagado seu crânio contra o solo. Em breve o fluído pegajoso e escuro da sua cabeça tomou rumo. Instintivamente, parecia que caminhava para a água lamacenta da poça, perto do corpo inerte. Lentamente se misturava com a lama. Parecia ter encontrado um semelhante.

Fernando Vieira Lazzarin